JOSÉ MÁRIO BRANCO | Cantor de intervençom

Nascido para, como diz a cantiga, “abrir grandes janelas”, o Zeca sempre suportou maio fechamento – quer o das ideias, quer o dos espaços. Das duas vezes que foi a Paris gravar comigo, em 1971 (“Cantigas do Maio”) e 1973 (“Venham mais cinco”), nunca ele escondeu quanto lhe desagradava e o indispunha a necessidade de ficar fechado no estúdio durante horas, e quanto ele não gostava nada de Paris nem do ambiente dos portugueses de Paris – hoje entendo como tinha razão.
Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um estúdio de gravações, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espaços sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a força simples e lírica das suas palavras? As máquinas! Custava-lhe aceitar que a “limpeza” e a “verdade” do som só pudessem ser conseguidas, neste mundo sujo e atravancado, por meio das máquinas, das técnicas, do isolamento acústico. Custava-lhe aceitar que, para fazer chegar aos outros as coisas belas e simples que inventava, fosse preciso tanta guerra para reconquistar o silêncio, a página branca, o patamar vazio donde tudo tem que partir.

Assim, por entre mil episódios que atestam o que acabo de dizer, há esse – o da gravação do “Cantar Alentejano” (“Chamava-se Catarina… “) – que testemunhei aquando da gravação das “Cantigas do Maio”, juntamente com a Zélia, o Fanhais, a Isabel Alves Costa, o técnico Gilles Sallé e, naturalmente, o violista Carlos Correia (Bóris). A opção de arranjo foi: só a viola, e a voz do Zeca. Sem rede.

O regime de gravações – tardes e noites – fez que, nesse princí­pio de tarde, fosse a altura de gravar o “Cantar Alentejano”, “Vamos a isto, Zeca?”, ia eu dizendo, naturalmente preocupado com a factura do estúdio. “Não tens nada para ir metendo?”, desconversava ele. Via-se que não estava pronto. “Queres ir me­tendo outras coisas? Faltam vozes no “Milho Verde” e no “Senhor Arcanjo”… E assim ia passando a tarde. “Está bem, vamos me­tendo outras vozes”. Mas não se conseguia grande coisa. A alma dele – percebi depois – estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. E, como tantas vezes acontecia, andava no estúdio para cá e para lá, em passos nervosos, como o jóvem leão na sua jaula.

Até que, já pela tardinha: “Eu vou até lá fora, olhar para as vacas” – o estúdio era numa quinta apalaçada, no meio dos campos. Desapareceu, uma hora ou duas. Quando voltou já era quase noite. “Vamos gravar a Catarina”. O Bóris meteu-se na pequena cabina, para o som da viola ficar isolado da voz. O Zeca, no meio do estúdio, sozinho e às escuras, cantou. Uma só vez. Essa que está no disco.

Nós, os outros, os privilegiados espectadores, estávamos na cen­tral técnica, quase todos a chorar incluindo o técnico francês. “Acham que é melhor eu cantar isto outra vez?”

“Não, Zeca, não. Está muito bem assim…

texto original

Porque haveria de ser preciso fecharmo-nos, horas e horas a fio, na tensa clausura de um estúdio de gravações, se o objectivo era precisamente registar os grandes e puros espaços sonoros das suas melodias, a frescura densa da sua voz, a força simples e lírica das suas palavras?

6 dias atrás

AJA Galiza

Aniversário da AJA

A AJA faz hoje 33 anos. Foi fundada por pessoas que não queriam que a memória de José Afonso, tanto como artista como ser humano, se esfumasse, na força das ideologias e na indiferença dos dias. Ao longo destes 33 anos houve altos e baixos na Associação mas nunca esmoreceu essa vontade de criar desassossego, como defendia José Afonso.

Esta data que hoje celebramos em confinamento, tem sido recordada com várias actividades realizadas pelos diferentes Núcleos e, nos últimos anos, com um Concerto que de alguma forma recorde o homem e o artista, cujo legado nos continua a emocionar e a transmitir mensagens de necessidade de alerta permanente na defesa da dignidade dos seres humanos.

Este ano, o tempo passou da mesma forma, mas decorreu de forma muito diferente. O que tínhamos planeado para este dia evaporou-se com a entrada de um vírus no nosso quotidiano que impôs a adopção de normas, comportamentos e ritos em que o afastamento de uns e outros é prioritário. Como festejar algo sem que as mãos se dêem, os corpos se abracem, as bocas se mostrem num sorriso pelo encontro?

Hoje somos dominados por um vírus com direito de antena diária, com contagem dos seus mortos, dos infectados, que de forma velada instaura o pânico, o medo ou então o seu aposto-o negacionismo- que é a forma mais perigosa de lidar com a situação. Que a estratégia do choque não seja a de aproveitar esta pandemia tão perigosa para instalar o medo, antes faça compreender que estamos num momento de encontro histórico da humanidade, faça perceber que há outras formas de ver o mundo, de viver a vida sem depredação, de modo humano, com amor, com consciência da vida breve. Sim, estamos em risco permanente. Viver é arriscado. Mas temos que saber aceitar o risco e saber geri-lo ao ponto de não ficarmos travados pelo medo. Esse medo que traz à superfície a parte pior de cada ser. O medo é um campo fértil para a xenofobia, os falsos moralismos, o julgamento do comportamento dos outros. Esta ameaça planetária, obscura, criou de tal modo uma emoção global que estaremos muito abertos para que limitem as nossas liberdades em prol da segurança. Só que a dicotomia entre liberdade e segurança não existe. É uma falácia. Só com as armas da liberdade se pode dar respostas concretas à falta de segurança, não só a nível sanitário mas em todas as outras dimensões da vida.

Achamos que estamos num momento histórico da humanidade. Será que o saberemos aproveitar? Faz-nos falta o conselho de Zeca e outros que, como ele, viam mais longe porque sempre voaram mais alto.

Viva, Zeca Afonso! Viva a AJA!

(texto de Guadalupe Magalhães Portelinha)
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